Som

 Musicas  

25/6/2026

As rosas- Sophia de Mello Breyner

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Letra:

Quando à noite defolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes
Todo o fulgor das tardes luminosas
O vento bailador das Primaveras
A doçura amarga dos poentes.
E a exaitação de todas as esperas

Cartas de Amor são Ridículas- Fernando Pessoa


Letra:

Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas).

Arte Poética II- Sophia de Mello Breyner Andresen




Letra:

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta. Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão. É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.

O jardim e a noite- Sophia de Mello Breyner



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Letra:

Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora, Para tentar como outrora Unir a minha alma à tua, Ó grande noite solitária e sonhadora. Entre os canteiros cercados de buxo Sorri à sombra tremendo de medo. De joelhos na terra abri o repuxo, E os meus gestos foram gestos de bruxedo. Foram os gestos dessa encantação, Que devia acordar do seu inquieto sono A terra negra dos canteiros E os meus sonhos sepultados Vivos e inteiros. Mas sob o peso dos narcisos floridos Calou-se a terra, E sob o peso dos frutos ressequidos Do presente Calaram-se os meus sonhos perdidos. Entre os canteiros cercados de buxo, Enquanto subia e caía a água do repuxo, Murmurei as palavras em que outrora Para mim sempre existia O gesto dum impulso. Palavras que eu despi da sua literatura, Para lhes dar a sua forma primitiva e pura, De fórmulas de magia. Docemente a sonhar entre a folhagem A noite solitária e pura Continuou distante e inatingível Sem me deixar penetrar no seu segredo. E eu senti quebrar-se, cair desfeita, A minha ânsia carregada de impossível, Contra a sua harmonia perfeita. Tomei nas minhas mãos a sombra escura E embalei o silêncio nos meus ombros. Tudo em minha volta estava vivo Mas nada pôde acordar dos seus escombros O meu grande êxtase perdido. Só o vento passou pesado e quente E à sua volta todo o jardim cantou E a água do tanque tremendo Se maravilhou Em círculos, longamente




Apolo Musageta- Sophia de Mello Breyner



Letra:

Eras o espírito a falar em cada linha Eras a madrugada em flor Entre a brisa marinha. Eras uma vela bebendo o vento dos espaços Eras o gesto luminoso de dois braços Abertos sem limite. Eras a pureza e a força do mar Eras o conhecimento pelo amor. Sonho e presença De uma vida florindo Possuída e suspensa. Eras a medida suprema, o cânon eterno Erguido puro, perfeito e harmonioso No coração da vida e para além da vida

Cidade- Sophia de Mello Breyner



Letra:

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta, Saber que existe o mar e as praias nuas, Montanhas sem nome e planícies mais vastas Que o mais vasto desejo, E eu estou em ti fechada e apenas vejo Os muros e as paredes, e não vejo Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas. Saber que tomas em ti a minha vida E que arrastas pela sombra das paredes A minha alma que fora prometida Às ondas brancas e às florestas verdes.

Evohé Bakkhos- Sophia de Mello Breyner


Letra:

Evohé deus que nos deste A vida e o vinho E nele os homens encontraram O sabor do sol e da resina E uma consciência múltipla e divina.